quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mico Meu!

Mico Meu!

 

A feira da Fruta! 

Não tenho dúvidas que a pior fase de minha infância era os dias de feira livre as quintas e domingos, quando íamos com a mãe comprar pouquíssimo e catar muito! 
Já tinha uns 6-8 anos e a maioria do morro só descia perto do meio dia, para pegar a hora da Xêpa, do tudo muito mais barato! 

Aí era dureza quado víamos alguém conhecido pois a mãe não disfarçava, se tivesse que apanhar uma fruta ou legume aproveitável debaixo de uma banca. 
Pior era comprar aqueles lotes de banana pra lá de Marrakesh, que chegavam em casa ja prontas para virarem vitamina de tão amassadas, pelo pêso das outras frutas e verduras compradas ou pegas! 

Mas o mico dolorosamente inesquecivel veio alguns anos antes! Ainda me lembro de nós, eu e meu mano catando várias tardes nas areia da Praia de Copacabana, copinhos de sorvete. 
A mãe entrou numa de ficar rica vendendo Pasta Rosa, (nome original) detergente cremoso para louças que vendia mais que o Lula vendendo a Dilma! 

Para isso comprou um bocado de sabão em barras, fez uma salada qualquer com outros ingredientes que incluia areia, colocou nos copinhos e lá fomos num ensolarado domingo, vende-los. 
Naquela época a feira ainda não era no Bairro Peixoto ao pé do morro. Era na Siqueira Campos em frente ao Shoping, na beira da Praia e a lado da Avenida Nossa Senhora de Copacabana! 

O preço era pouca coisa mais barata que a original e no copinho de sorvete se via que era artesanal, ou seja na época, de nenhuma confiança! Sentamos ao lado da mãe e ela passou a gritar oferecendo a pasta quase Rosa e nada. As horas passando e nada e ela com uns 20 potinhos do produto. Até que Deus com pena mandou-nos uma cliente! 

Era nossa Vó de criação, a mesma que ajudava a mãe há anos e comprou um pote. 
Voltei/voltamos umas 13;00 arrasados, ja que muita gente do morro ia aquela Feira, pois era feira de barão! 
Mal sabia eu oque o destino nos preparava e eu e meu irmão passaríamos ! 
É a vida? 

 

Japeri, o inferno é aqui! 

Estava já pelos meus 14 anos e não sabia ainda oque era dinheiro. Passara pelas minhas mãos apenas troco para balas e refris. Praia com fome já não aguentava mais o jeito foi cair no "basquete"! (trabalho) 
Dei sorte pois no jornal tinha um á altura da minha escolaridade: 
Preciso de rapazes para entregas! 

Carteira de Tabalho nova e zerada no bolso, parti com fé para o endereço na Avenida Antônio Carlos no Centro do Rio de Janeiro e dei sorte. Contratado na hora e a 1ª pergunta do dono foi: 
Voçe sabe aonde é a Avenidade Presidente Vargas? (principal avenida do Centro) 
Neguei, pegou-me pelo braço, levou-me até uma janela e apontou para baixo: 
É esta daí! 

Que dureza Dona Tereza! 
Era um candidato a entregas que não sabia aonde era a principal avenida do Rio de Janeiro! 
Ele relevou minha ignorância e me deu uma semana de entregas na proximidade só para ir sentindo o clima. 
E como senti: 
Um calor de explodir termômetro, 42 graus a sombra e eu carregando de 20 a 30 quilos de livros! 

Pois é, era uma distribuidora de livros que estava com o lançamento de uma enciclopédia de culinária, acessível até ao mais míseros dos mortais. 
A probosta irrecusável do vendedor era: 
Receber a coletânia de 4 grossos livros gratuitamente por uma semana e se gostasse dava a 1ª prestação, se não devolvia. Aí, o pobre de marré de si, que queria aparecer, segurava mesmo sabendo que não ia ficar. 

Afinal para o Brasileiro: 
De graça até injeção no olho! 
O otário aqui saía de casa com a roupa limpinha e ao meio dia parecia um taifeiro do cais do porto, tudo porque quem ia receber a 1ª parcela era a besta aqui. Saía da empresa com 8 coleções que era o máximo que meus bracinhos de simio aguentavam. 

E se coincidia de duas entregas e cobranças serem no mesmo bairro eu fazia. 
Entregava duas, que alívio! 
Cobrava duas, devolução! 
Teve dias que sai com 8 e voltei com 10 coleções! 
Para piorar a firma era pequena, pouco dinheiro, economizava até o papel higiênico, de jeito que as vezes tinha que andar quilômetros, só porque a entrega era no mesmo bairro. 

Como disse não desisto fácil, mas quando os vendedores se mandaram para Japeri e eu tive que ir entregar/buscar foi a gota dágua! 
Japeri ficava aonde o Judas perdeu as meias, as botas ele as perdeu bem antes! 
Entrei no trem para Japeri umas 9:00 horas e cheguei no inferno, digo no buraco 13:00! A cidade era só a estação de 10 metros de comprimento e a rua ao lado dela. Casa, contei duas de cada lado da rua! 
Não entreguei, menti bunitu, disse que o vendedor se enganara! 
Não fiquei um mês neste inferno! 

 

Vende dor na Praia do Pepino? 

Situação apertou, tipo: 
Ou dá ou desce ou então desaparece! (de fome) 
Apesar de odiar venda, trauma de infância com certeza, não pude correr do pau e depois de uma 2ª feira fracassada procurando emprego, na terça estava na firma que sempre tem vaga no Rio de Janeiro: 
Vender refrigerante na praia! 

Malandro esperto, zóiudo, não ia entrar na roubada de pegar aqueles botijões de 20 litros e arrumar uma escoliose, carregando aquela mérda no ombro. 
JC carregou a cruz porque estava escrito, mas meu destino eu mesmo que ia fazer. 
Entrei na firma concorrente da Coca Cola e que vendia: Pepsi, Mirinda, Guarinda, Crush e Grapette. 
Do grapette me lembro o slogan: 
Quem bebe Grapette, repete! 

Mas urubu quando esta com azar, o debaixo caga no de cima, o meu ponto na Avenida Atlântica, beira do mar foi (tinha que ser:) exatamente a 5 metros de um vendedor da Coca cola! 
Cheguei desanimado para pegar aquela bomba umas 9:00 e até ele atender os antigos e me despachar ja era umas 10 e meia. Cheguei morto de sede meia hora depois, empurrando aquele carrinho velho, emtupido até a boca, com gêlo e refrigerantes. 

A comissão me pareceu até boa, de cada 3 refris vendidos o quarto era meu e qualquer pobretão do morro via que os carrinhos vendiam a dar com o pau..... 
Não tinha intimidade com o vendedor da Coca Cola para lhe pedir agua, daí o jeito foi rezar e chupar pedra de gelo, sabendo que vendido os 3 refris, ia sugar do quarto até o logotipo! 

Contando com boa venda não levei nem um sanduba, ja pensando em me esbaldar no refri com hamburguer! 
Deu 12;00, deu 13;00, veio a 14;00 e só tinha vendido 2 refrigerantes! Enquanto isso meu concorrente ja ia pelas 5 caixas e olha que ele só tinha: 
Coca, Fanta e uma de Limão! 
La pelas 15;00 ja me sentia um pinguim de tanto chupar gelo e mandei pra dentro com gosto, a oque eu mais gostava, de uva: Grapette! 
E quem bebe grapete? 

Repeti duas horas mais tarde, sabendo que ia ter que empurrar aquela bomba toda de volta até a loja. Cheguei uma 19;00 e tive que entrar na fila ja que o despachante era só um. Cheguei em casa uma 21;00 morto! 
Mas eu sou Brasileiro e Brasileiro não desiste nunca! 
(Desde que voçe não venha para o N..... do Brasil!) 

Quarta feira, novo dia com um sol de rachar 
coquinho, cheguei novamente umas 10;30 e o concorrente ja tinha vendido umas 5 caixas. Fiquei animado mas no fim do dia contabilizei uma caixa e meia, ou seja umas 40 garrafas. E assim foi aumentando gradativamente e eu bebendo do mesmo jeito. A "amizade" com o concorrente foi um péssimo negócio, pois por ele vender mais precisava de mais gelo e o otário aqui é de dava. 

Na sexta cortei relações com o mesmo e Deus para me castigar aumentou a venda do dito cujo. Resumo da ópera: 
No domingo as 13;00 ele ja tinha vendido 25 caixas e eu finalizei o domingo com 8 caixas. O pior que enquanto o distribuidor dele trazia e e levava as caixas o meu só trazia, se eu errasse e pedisse muitas caixas,(mais ou menos as 13;00 horas o caminhão passava) tinha que leva-las cheia naquele carrinho vagabundo! 

Desgraça pouco é bobagem, quando o caminhão chegou eu ja tinha vendido umas 5 caixas e a Praia bombando de gente. Me empolguei e pedi mais 5 caixas, mas com a uruca que estava acabei voltando com 2 e mais duas geladas dentro do carro. 
Por medida de economia só comi 3 sandubas o dia inteiro, assim cheguei em casa mais fraco que um prisioneiro de um campo de concentração! Neste mesmo dia me despedi das vendas de refri, afinal Deus fez a praia para nos diverti-mos! 
Correto? 

 

Araruta, Araruta! 

Não tenho dúvidas de que meus 2 melhores empregos, foram na Casa Mattos Livraria e Papelaria e Casa da Borracha ambos na Avenida Copacabana. 
A época mais fácil de se conseguir emprego no Rio de Janeiro, é no Natal e até quem não quer nada com o serviço, arruma emprego de vendedor em Papelaria, sapataria ou loja de Brinquedos, que são as que mais contratam. 

Entrei na Casa Mattos na época do gerente Leite e foi uma beleza. Ele além de ser Pedra 90 tinha quase 2 metros de altura e como a papelaria tinha 2 andares, me esbaldei. Descia até o sub-solo com ele vendo, depois subia lentamente e com o pescoço tipo avestruz, ia esticando até ver todo o recinto por cima das estantes. 
Periscopiava todo o ambiente procurando-o. 

Se não o visse dava um estirão de 30 metros até a porta e sumia no trecho. Se na volta me pegasse a desculpa era: 
Fui tomar café! 
Se tivesse tomados todos os cafés hoje eu seria preto! 
Pior era mesmo a chegada do caminhão (diário) com mercadorias. Só vinha depois que a loja fechava, as 20:00 horas. 

Só os homens é que ficavam para descarregar e como éramos mais de 10, havia escala. Eu me apresentava para substituir os que moravam longe e com isso carimbei meu passaporte de contratado depois do Natal. Seu Leite ainda dava um big lanche para quem ficava. Na minha hora de almoço saía com minha marmita para o Shoping ao lado aonde assistia a filmes no Cine Hora. 

O Sr. Leite podia chegar cedo mas não abria a loja antes de 10 minutos para as 8:00 dando tempo de a maioria chegar! 
Achava errado o cliente esperar o vendedor do setor para ser atendido! 
Eu chegava cedo para ficar vendo o movimento e me expondo como empregado, afinal desempregado numa cidade grande é sinônimo de vagabundo. 

Mas uma guerra no Afganistão, Iraque ou algo assim, mudou minha rotina. Cheguei 7,30 como de costume e êpa: 
A loja estava aberta! 
Não entrei, não sou doido e fiquei posando na porta. Ouvi um psiu vindo da loja e de la de cima do quinto degrau um Turco, Iraquiano ou coisa assim me inquiriu: 

Voçe trabalha aqui? 
Pergunta besta ja que eu estava com a linda camisa azul celeste da empresa. Confirmei e ele mandou-me entrar. Respondi que ainda não era 8:00. Ele retrucou: 
Tem clientes no balcão! 
Repliquei: Sou repositor, trabalho no depósito! 
Ele retirou o pino da granada: 
Afinal voçe quer trabalhar aqui ou não? 

Entrei muito, muito contrariado. E quando me contrariam acabam com meu dia. 
O filho de Caim virou minha sombra nesse dia e o truque de ir ao subsolo não funcionou. Neste dia trabalhei como um burro sob a supervisão de Satã! 
O satanás retirou a escala de descarregamento de caminhão, (quem usava cueca ficava) além de não dar lanche! 

Onda vai, onda vem, essa onda pequena não ia me afogar. Dois filmaços no Cine Hora! 
Consegui ver um no almoço, mas o 2º era problema. Desci para o subsolo mas sabendo que era parada dura. 
O infeliz era Workolic (seu lazer era trabalhar) e possivelmente dormia no emprego. Estou lá embaixo, na moita, coração a mil, pronto para ganhar a liberdade, quando vejo aqueles pés lépidos descendo a escada. Saí da toca e nossos olhares se cruzaram. 

No dele frio e penetrante como uma ave de rapina, pude ler nas retinas, M e M de: 
Morra Miserável! 
Na minha testa ele leu: 
Está Patetando Pateta! 
Subi a escada sabendo que no fim havia luz. De lá via o sol refletindo no teto dos automóveis, a calçada fervilhando de pessoas indo e vindo, parecendo ter nas mãos bandeirinhas com as palavras: 
Libertas quae sera tamem! 
(liberdade ainda que tardia!) 

Disparei rumo a ela e seja oque Deus quiser. Vi todo o filme e voltei com a cara mais deslavada do mundo. Dei azar! 
Joguei pedra na cruz ou algo assim pois o 2 de Paus estava justamente no corredor que ia para o depósito. 
Era agora o meu teste para ator global. Virei picolé ambulante desfilando numa passarela do polo norte! Sou cego desde menino, pensei e passei batido. 

O Dedémônio também era ator e só fingia mexer na estante. Me segurou pelo braço, perguntando com voz tipo navalha na carne: 
Aonde voçe estava? 
A resposta estava mais do que decorada: 
Fui tomar c..... 
Não me venha com subterfúgio ignóbil! 

Que porrada! 
Pensei em responder, Araruta, Araruta, mas temi que o excomungado soubesse a resposta: 
Eh, Eh, filho da Fruta, da Truta, da P.....! 
Sabia que Ignóbil ja era ruim, mas acoplado ao Subterfúgio era dose para cavalo! 
Saí com aquelas malditas palavras latejando na minha cabeça: 
Subterfúgio Ignóbil! 

Não tinha mais alegria, era ver o satanás e as duas palavrinhas brilhavam no meu cérebro: 
Subterfúgio Ignóbil! 
Em uma semana estava fora do emprego e sómente muitos anos depois fui ver o significado de tamanha afronta 

subterfúgio 
sub.ter.fú.gio 
sm (lat subterfugiu) 1 Pretexto para evitar uma dificuldade; evasiva. 2 Escusa dolosa ou fraudulenta. 

ignóbil 
ig.nó.bil 
adj (lat ignobile) 1 Baixo, vil, desprezível. 2 Que não tem honra; vergonhoso, torpe. 3 Que possui pouco ou nenhum valor. 

Pinta como eu pinto? 
Trabalhei numa boutique da Djalma Ulrich prum casal mão de vaca, ai limpava a boutique e depois tinha que limpar o AP. La encontrei a cozinheira doida pra me comer, e também um fabuloso quadro em cubismo de um grupo de sambistas, tipo portinari. Amei e me enamorei do quadro, passei a limpar matando mesmo, pra poder desenhar o quadro. A cozinheira ali, marcando em cima. Ela dizia: 
Vem! E eu: Ja tô indo! Nunca fui. Até hoje ela deve estar pensando, como um quadro pode valer mais que uma Bimbada! 

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