quarta-feira, 13 de maio de 2015

Carlito Trapalhão! Waikiki - Dormi no Inferno! Pintando o 7

 

Carlito Trapalhão! 
A vida nos reserva surpresas quase impossíveis de acontecerem. Carlito, mais tarde Carlito Trapalhão era pequeno, com barba, bigode e longos cabelos pretos nos relembrando um Tiradentes em miniatura. 
Sua voz forte transmitia determinação fruto da vivência no ramo de vendas para muquiranas que desvalorizam o suor alheio. 

Conheci-o na frente de uma loja vendendo seu artezanato estilo hippye de brincos, pulseiras e colares. Tinha um brinco de cores espetaculares feito com tinta de automóveis, que vendia mais que babanana na feira. 
Quis o destino que Carlito fosse morar no meu morro pertinho da boca de fumo, (que por sinal ficava atras de minha casa) e como sua casa ficava ao lado do meu caminho para o armazém, acabei encontrando-o. 

Nesta altura do campeonato ele não dava conta da demanda dos brincos e acabou me convidando para fazê-los. Eu que sou apaixonado por artezanato topei na hora. Fabricava de manhã e vendia a tarde. 
Ele tinha uma mulher jovem e bonita e um filho de uns 2 anos. Como todo hippye o comunicativo Carlito logo se enturmou com os compradores e vendedores da boca de fumo! 

Numa de nossas saidas para vender, manifestou seu temor pela mulher ficar sózinha em casa e com razão, ja que deixamos um vagabundo conversando com a mesma quando descemos. 
O destino mexeu os pauzinhos e meu vizinho, um jovem muito querido na localidade que morava com o pai e a mãe, perdeu o pai. A mãe foi morar com a irmã noutra parte do morro, deixando-o só no barraco por um bom tempo. 

Até que ele resolveu vender e comprei a preço de pirulito. Cedi por um bom tempo para Bebeto e sua adoravel Emy. Mais tarde preocupado com a mulher de Carlito vendi a ele com uma única cláusula: 
Quando fosse vender teria que ser para mim ou alguém que eu indicasse! 
Moravámos numa espécie de vila que só tinha um vagabundo até então, embora os outros circulassem de vez em quando por ali. 

Carlito não era viciado, dava uns tapinhas 2 a 3 vezes por semana, numa delas até deixou seu filho fumar. Exemplo desse quilate presenciei em Santa Tereza: 
O casal jovem 20/25 anos bebia uma lata de cerveja, ela com o bebê de uns 8 a 10 meses no colo e ele dando uns golinhos para o mesmo. Quando ele tirava da boca do neném para beber, o garoto com os olhos esbugalhados esticava os braços querendo pegar a lata! Ante a cena eles riam as bandeiras despregadas. 

Com Carlito meu vizinho aprendi enes truques para se fazer colares, brincos e pulseiras. O problema é que Carlito saiu de perto da boca de fumo, mas não das companhias. 
Numa noite reuniu-se com mais 2 no barraco e passou a noite queimando Mary Juana do tipo manga rosa! Eu sem ter dado um tapinha, só aspirando o fumacê através da parede do barraco, vi a letra da música Vapor Barato passeando pelo teto. 

Me afastei lentamente de Carlito, agora Carlito Trapalhão, não sei porque, mas não tardei a descobrir. A mérda maior eu já tinha feito, que foi levar Carlito Trapalhão para o posto 9 em Ipanema. Não demorou a me entregarem que ele estava vendendo fumo! 
Cortei drásticamente minha ida diária ao Posto 9, indo no máximo 3 vezes por semana. Conhecia a música: 
Ei capoeira tu quer me matar, ei capoeira joga lá que eu jogo cá! 

Derepente pimba! 
Carlito Trapalhão quer vender o barraco com urgência, prazo de 2 dias! Desalento total ja que morava em area carente, mas Deus é pai, Jesus é filho, me lembrei que minha amiga era filha da vizinha de Carlito. Recém casada, se mudara para outra parte do morro pagando aluguel. 
Ela topou morar ao lado da mãe e no 3º dia fechamos o negócio. 

Carlito que não tinha mudança se mandou no mesmo dia, mas não foi longe. Com a merreca da venda do barraco, mas algum arrumado não sei aonde, comprou um carro, digo carroça da marca Gordini, mas não foi muito longe. A carroça, digo carro quebrou perto de Angra dos Reis e ele acampou numa praia de lá. Dois dias depois minha amiga foi entrar no barraco. 

Aí apareceu o dono da boca de fumo, (ex-presidiário por sinal) requerendo a paga por 2 gramas de cocaína que Carlito Trapalhão estava devendo. Minha amiga chamou o avalista/vendedor por acaso este pateta que vos escreve. 
Ele sabia que não poderia forçar muito a barra no recebimento da cocaína pois não éramos o comprador, mas intimidar não custa. Sabíamos que ir para a delegacia era o último recurso, que nos inseria no grupo dos x-9, ou seja: 
Dedo Duro! 

Mas a ameaça velada a uma dama era covardia, aí o Zorro, Batman e outros menos votados que habitam esta besta quadrada se revelou: 
Ninguém entra no barraco! 
Uma semana se passou e eu com o peito de pomba bancando o Super Herói até que fui salvo pelo gongo. Passei a rodar o bairro inteiro tentando achar Carlito Trapa numa rua qualquer, voltei ao posto 9 e derenpenguete; 
Lá estava ele! 

Contei nosso drama e ele quase jurou de pés juntos que o meliante estava mentindo. Tentei convencê-lo a ir lá no morro conversar com o vagabo (vagabundo safado) mas ele também tinha uma super-Heroína dentro dele e disse: 

Se eu for lá é para jogar um coquetel molotov no barraco dele! 
Eu me cagando todo e o trapalhão "cagando goma"! 

Desse mato não saíria coelho e o dono da boca apimentou o problema, mandando seus cupinchas estacionarem na porta do meu barraco, isso incluía o mais famoso do morro: 
Neném Magro! 
Agora quem estava emagrecendo era eu, não dormia, nem comia direito, só pensando em como sair deste imbróglio. 

Solução drástica foi rachar o meu barraco com o miserável e ainda tive que fazer uma portinha de emergência para o mesmo no fundo do quarto. 
Ou seja além de dar mole a vagabundo ainda tive que trabalhar 10graça! 
Estava na hora de cantar pneu, dizer adeus a Cidade Maravilhosa, deixando de brinde uma boca de fumo no local! 
Troquei oque restou do barraco por duas passagens Rio-Norte do Brasil e disse adeus as ilusões! 
É mole ou quer mais! 

Cobra que não anda não engole perereca! 
Dei azar em quase todos os empregos, só salvou 3, Casa da Borracha, aonde pude conhecer o "barraco" da benedita da Silva, o Tim Maia, Jorge Amado, Casa Mattos livraria e Papelaria e a Waikiki! 
Vou contar esta da casa da Borracha: 
O Departamento de seleção da Casa da Borracha, não escolhia a pessoa pela beleza e sim por simpatia, educação, delicadeza, por aí. Assim as pessoas que lá encontrei eram espetaculares, de beleza de médio para baixo. A loja ficava na avenida principal de Copacabana, ao lado de um mini shoping center. 

Certo dia alguém achou no depósito da loja um pé-de-mesa (pênis) de borracha de uns 30 cm, cuja glande era do tamanho de uma maçã e tinha uma cinta para deixá-lo na posição em "ponto de bala"! 
Apesar do aspecto repulsivo ele tinha uma peculiaridade, quando se apertava as "petecas" saía uma fumacinha branca do talco usado para impedir a borracha de grudar. Ficava imaginando quem teria coragem de usar aquilo, e o quanto gastaria de vaselina para lubrificá-lo! 
Mas asssiiimmmm! 

Certo dia estava eu tomando café com um dos funcionários da loja o Mister X, quando ele pede para não me mexer, enquanto se esconde ao meu lado. Olha para a direita de onde vem o perigo e vejo um Clark Gable de 1,90, com um bigode que parecia um escovão de tão largo. Mister X, símpatissímo, franzino, era bem casado com 2 lindas filhas, mas era um "florete", (diferente do "gillete" que corta dos 2 lados, ou seja dá e come) o contrário do "espada", era Bi-sexual! 

Mister X sempre fazia por prazer, mas numa noite ligeiramente duro, optou por receber justamente com aquele Rambo bigodudo. Em lá chegando, no AP da dita cuja bichona enrustida, bota a jibóia pra fora e a sansônica bicha, ávida por uma hora de prazer, avoa em cima do "bichinho", ligeiramente mole por conta do incentivo, que não era mais o prazer pelo prazer. Mister X estava bastante preocupado pois nunca negara fogo e a bichona cada vez mais enlouquecida, pois ela sabia que: 
A rapadura é doce mas não é mole não, e chupar aquela cana, não era sua intenção. 

A massagem manual não aumentou o "endurecimento", assim o coisa ruim achou de passar alcool, que dá a sensação de calor. 
Mister X não deixou e a bichona endoidou de vez e fê-lo descer a escada a base de porrada. 
Desde esse fatídico dia Mister X nunca mais fêz '"Amor" por dinheiro! 



Waikiki 
A Waikiki marca famosa nessa época(1980:) tinha um patrão (americano) com sobrenome famoso. Jonhson&Jonhson que era uma jóia de pessoa, mas meu santo não se deu com a gerente, daí... Numa sala com apenas 4 funcionários produziamos camisetas para as mais famosas lojas do Brasil. Perto de 25.000 camisetas mês. O gerente de produção era um português fugitivo da guerra de Angola, pessoa espetacular! Contou que tinha um empregado negro lá que não gostava de banho. 

Aí umas das brincadeiras prediletas dos familiares era pregar um sabão na testa do infeliz e ele passava varias horas com aquela decoração exdrúxula na testa! 
Estourou a Guerra de Angola e quem era branco e não teve tempo de correr morreu. Ele estava bebendo num bar de brancos quando ouviu a gritaria e logo depois entrava no bar uns 5 negros e dentre eles seu empregado. Na mão de vários deles grandes facões. Ele olhou para o negão e lembrou da brincadeira de mau gosto. O negão olhou para ele e provavelmente idem... 

Ele botou 10 no coelho, 20 no viado , passou sebo nas canelas e escafedeu-se pela porta de trás com a negrada ululante as sua costa. Deu tempo de chegar em casa pegar dinheiro, documentos a famila e se mandar para o Aeroporto! Na Waikiki ganhávamos muito bem, embora trabalhassemos muito, mas folgava-mos sábados e domingos! 
Assim o português aproveitava para conhecer o Rio e numa dessas fez amizade com um jovem. O jovem a vir na hora do almoço e eu senti/achei que ele estava afim de explorar o portuga. Eu almoçava no serviço junto com a costureira e fez um comentário a respeito com ela. 

Ela deve ter falado com o portuga pois ele ficou frio comigo. Embora meu comentário possa/tenha sido maldoso, não me interessava que chegasse nele, se não eu mesmo falaria. Fiquei triste por perder a amizade e pela sacanagem da costureira. Não me sentia bem no mesmo ambiente com os dois. 
Dei sorte pois a Waikiki resolveu se mudar para o Paraná e eu optei por não ir. Se tivesse ido hoje meu destino hoje seria outro com certeza! 
Cuidado com a lingua seu Tamanduá, formiga vermelha morde pra danar! 

Que roubada! 
Na década de 80 se tu arrumasse emprego fácil era porque era ruim, o patrão era péssimo,pagava mal ou os 3! A epidemia de fliperamas estava bombando e surgia casas de jogos igual a insetos depois da chuva. Para pegar este emprego tinha que ser casca grossa e meu currículo com participação em filme Capoeirístico ajudou. 

Meu setor era de vendedor de fichas e ajudar o gerente como guarda costa se fosse preciso. A juventude Transviada era a maior frequentadora do local e tinha ícones como exemplo: 
Os playboys da Figueiredo e os pés rapados da Cruzada que frequentavam semanalmente as páginas policiais! 

Dei sorte pois minha loja ficava no Lido aonde os playboys e os Cruzadas não iam, ficando a frequência limitada aos eméritos gazeteiros de colégios próximos e pivetes que "trabalhavam" nas portas dos hotéis da área. A tal juventude transviada fazia questão de demonstrar a educação familiar e por isso as máquinas apanhavam mais do que mulher de malandro! 

Na ânsia de conduzir a bola do jogo chacoalhavam a máquina para tudo que é lado, pondo em risco o imenso vidro que protegia a mesa de jogo! 
A ordem do dono era: 
Vidro quebrado, dinheiro do sálário descontado! 
Então quando chegava os mais indigestos, eu saía do caixa com os bolsos cheios de fichas e ficava vendendo-as ao lado dos mais violentos com o intuito de intimida-los! 

Numa manhã entrou meia sala de um colégio e senti que o bicho ia pegar, afinal o morro do Chapéu Mangueira era a 1 Km dali. Disputa a dinheiro era proibida então quem perdia pagava a ficha. O problema é que a ficha do 1º jogo alguém tinha que pagar e quem tinha pago foi o (Futuro) ganhador. 
O adversário (o perdedor) tinha que comprar a sua também para garantir a lisura da aposta, mas na hora de entregá-la para o ganhador, negou-se! 

O ganhador menor e mais fraco tentou tomar a força, mas o grandão o amassou sobre o fragil vidro da máquina! Ouviu-se um estalo seguido de silêncio absoluta! 
Alguém gritou: 
Simbora Jorjão que o bicho vai pegar! 
Sairam em desabalada carreira ficando para trás só as gargalhadas. 

Nos entreolhamos, eu e o gerente e eu enxerguei meu salário no vermelho e ainda faltavam 2 semanas para recebê-lo! Mas a macumba da nega é boa de maneiras que apareceu nesta noite o recolhedor de fichas da empresa, (recolhiam todas as noites para poder nos fornecer fichas para venda) que não era o mesmo de sempre! O colocamos a par de nosso drama e ele ofereceu uma solução: 

Eu vendo cópias de chaves para abrir a máquina e chegar no cofre. O preço é salgado mas com 3 dias voçes saem do vermelho aí o resto é lucro! 
Eu que ja era honesto na barriga de minha mãe, não quis participar da vaquinha, então o gerente comprou a cópia da chave sózinho! 

Aí a gente fechava 1:00 hora da manhã, o gerente abria a máquina pegava o cofrinho de 20 centimetros de largura por 30 centimetros de comprimente e 5 centimetros de altura e chacoalhava, chacoalhava, as fichas iam caindo, uma ou duas de cada vez. Faziam um barulhão danado e o gerente e eu temendo que o dono passasse e visse a luz acesa por debaixo da porta. 

Noutro dia o mesmo recolhedor de fichas e o gerente falou da dificuldade de retira-las. Então o recolhedor disse para ele preparar paus de picolé com visgo, (liquido branco que sai da jaqueira) que era tiro e queda! O recolhedor não deu só o peixe como diz o velho deitado, ainda ensinou a pescar! 
Aí oque demorava uma hora para tirar 20 fichas passou a ser feito em 10 minutos. 

Nesta altura do campeonato o gerente ja tinha pago a parte dele do vidro e ja estava comprando um novo, enquanto o honesto aqui só olhava. Só faltava uma semana para o fim do mês de um trabalho em que eu entrava as 8:00 e saía as 2:00 da manhã sem direito a almoço, lanche, janta, tudo do meu bolso. Diz novamente o velho deitado: 
Ladrão que rouba ladrão tem sem anos de perdão! 

Eu estava sendo roubado pelo patrão que não pavaga hora extra nem insalubridade ja que a profissão era razoavelmente perigosa! Caí na gandaia e o gerente garotão abriu um cofre só pra mim! Mergulhei de cabeça e em 3 dias ja tinha pago minha parte no vidro e no fim da semana comprei minha chave! Não era qualquer chave, tinha 4 lados, na época um espanto! 

Mas araruta tem seu dia de mingau e numa manhã entra um cara com cara de poucos amigos num casaco de couro embora tivesse um sol de rachar. Tremi na base, senti um frio na espinhela, seria o meu primeiro assalto! Ele me deu uma nota de 5,00 para tirar 2 fichas ou seja 1,00! Dei as 2 fichas e 4,00 de troco, mas ele me pediu para devolver os 5,00 e tirar as fichas de 10,00! 

Devolvi os 5,00 (mas não pedi meus 4,00 de volta)e dei o troco de 9,00! Aí ele me pediu para tirar de 50,00!!!! 
Nesta altura do campeonato eu ja estava me cagando todo, pois achava que ele estava querendo saber se eu tinha dinheiro suficiente para ele anunciar o assalto. Apavorado devolvi os 10,00 dei as 2 fichas pedi que ele jogasse e fosse embora! 

Pra minha sorte ou azar ele nem jogou as duas fichas, na metade do jogo se pirulitou! No final do dia contabilizei o prejuizo: 4,00 + 9.00+ 10,00 = 23,00! 
Prejuizo dele: Tinha pago 2,00 ao invés de 1,00 pelas 2 fichas! 
Acabara de cair no golpe do trôco! 
No meio do 2º mês o gerente geral da firma me chamou para explicar como aparecia visgo numa porrada de fichas em cima de sua mesa! 
Não soube explicar e por isso fui mandando embora. Ele me pagou assim mesmo os dias de trabalho, afinal trabalhei muito por pouco...... 

 

Dormi no Inferno! 
Trabalhei no jornal O Globo e foi uma benção! Entrava as 6:00 da manhã e as 9:00 ja estava em casa. Além disso podia almoçar de graça na fabrica de jornais no Centro da cidade. Mais o melhor era que na hora da entrega, entravamos em contato com as empregadinhas doidas para namorarem. 

Me dei bem e pouco tempo depois arrumei uma para sabado a noite, dia de afogar o ganso, molhar o biscoito, descabelar o palhaço. Como a "comida" era de graça resolvi pagar um motel de qualidade, mas não dava para ser em Copacabana pois não achei meu dinheiro no lixo. Fui para o Centro da Cidade mais precisamente atras da Praça da República aonde achei o Hotel Divino. 

Era um casarão antigo, colorido, agradavel de se ver. Após meia hora de espera expostos aos olhares dos que saiam/entravam, finalmente o recepcionista nos arrumou um quarto! 
Que maravilha, luz neon que insidia na pintura azul do quarto e realçava umas estrelas prateadas, uma coisa retrô-psicodélica! 

O ar condicionado fazia o mais exigente pinguim bater palmas. A exagerada exposição me deixou nervoso e me fez suar bastante, por isso tomei um banho e ja saí uniformizado para entrar no gramado. Entro em campo e vamos pro jogo que trabalho é roubo! Na hora que o centro avante vai furar o véu da noiva o telefone toca. Atendo e uma voz masculina pergunta se não vou querer um tira gosto! 

Agradeço educadamente e como um violinista, viro a cara e meto a vara! Pouco depois corro pra galera. O dedo nervoso da cozinha aciona o "zé pretinho" e no meu quarto ele toca. Atendo e ouço a mesma voz masculina: 
Temos Cidra (champanhe de pobre) e tira gosto de presunto e queijo! 
Perdi a compostura: 
Tô comendo filé e voçe me vem com tira gosto! Não quero pôrra nenhuma! 

O trauma de frio adquirido na infância em Paraná-Santa Catarina foi despertado pelo clima polo norte e o "zéquinha" que no início estava mais duro que pau de noivo, agora estava a meio pau! O jeito foi desligar o ar condicionado. Mas qual botão desligava? Mexi tudo que era botão mesmo assim não acertei. Desliguei na tomada messmo e mais tarde quando precisei liguei a tomada e não funcionou. 

Saí as 6:00 da manhã e por coincidência encontrei todos os funcionários do hotel no corredor. Na outra semana voltei na cara dura e tomei um chá de cadeira de mais de uma hora e não consegui vaga! O jeito foi andar a Lapa toda e lá pelas duas da manhã consegui vaga. 
Era uma espelunca e tinha bar/bilharito atras que fornecia gratuitamente a trilha sonora que embalaria nossa noite de amor. 

Eram gritos, falação, gargalhadas e a monótonia das tacadas seguida pelo bate-bate das bolas se espancando no pano verde. Entramos, fechei a porta e nossas narinas foram invadidas por um perfume de gardênia, mais precisamente: 
Extrato de pó de merda! Fazer amor nestas condições só na cadeia. Saí do chiqueiro, digo quarto e tentei troca-lo. 

Dei sorte havia vago um naquele instante. Entrei no mesmo desanimado, estava morto de cansaço não só pela caminhada como pela humilhação no Hotel Divino. 
Liguei o ventilador tipo helicóptero de mais de 10 kilos, pendurado apenas pelos 2 fios elétricos. O sinistro aparelho rebolava mais que mulata na sapucaí, ameaçando cair a qualquer momento no meu rabo! 

Se eu soltasse um pum aquela peste diria com certeza: 
Pelo grito, pelo berro, esse cu ja levou ferro! 
Com as pás ameaçadoras de mais de meio metro perigando fatiar meu rabo, fiz amor com um: 
Olho no sabre outro na "amiga"! 
Por sinal a "amiga" me reservara uma surpresa. Uma baita verruga na costa do tipo serra elétrica(derruba qualquer pau duro) e no auge do esfrega-esfrega quando minha mão batia naquele caroço de abacate a pressão do 'zéquinha' ia quase a zero. 

O jeito foi jogar minha virilidade para escanteio e transformar minha parceira num depósito de gala. Logo após virei homem DVD: 
Deita, Vira e Dorme! 
No auge do sono fui acordado por uma gritaria infernal que vinha do bilharito e findou com gritos de socorro. Dias depois constatei no jornal que lá um homem tinha sido esfaqueado! 

Aí não dormi mais e fiquei torcendo para terminar logo aquela sexta-feira 13! Depois dessa noite seria: 
Motel na Lapa nunca mais, isso se a carne não fosse fraca. Para escapar da hora do rush da putaria, safadeza, sacanagem, sem vergonhice e conseguir vaga nos sabados a noite tinha que chegar depois de uma da madruga! Cheguei e o quarto na penumbra como manda o figurino. 

A garota tinha bebido além da conta e ja estava igual a música: 
Era puro extâse! 
Eu queria dormir até umas 10:00 da manhã de domingo para depois ir passear e almoçar. Acordei 5:30 com o Rei Sol, a rainha, Princesa e meia dúzia de súditos dentro do nosso quarto! O casarão tinha janelões antigos de quase 3 metros de altura que deixavam passar até uma girafa. 

Para piorar o banheiro e o quarto eram de ladrilho branco e deitado naquela cama branca me senti um paciente traçando a enfermeira. Deste dia em diante só na areia a beira mar ou em becos escuros atrás de bancas de jornais. 
Esta é a sina de um Don Juan pé rapado 

 

Pintando o 7 
O shopping center da Rua Siqueira Campos 143 em Copacabana/RJ, já existia em 1966, aonde nos abrigamos quando houve deslizamento no nosso Morro e em 1980, ainda não tinha sido completamente ocupado. Desempregado, descobri no pé do meu Morro um pintor desenhista que precisava de um ajudante, mais precisamente um preeenchedor de letras. 

Serviço fácil mas terrivelmente maçante, pois exigia muita paciência e firmeza na mão, embora o pagamento fosse ínfimo, porque eu era aprendiz neste ofício! 
O problema problemático é que êle adorava "dar uns tapinhas" enquanto desenhava. Nessa época a polícia ganhava também por produção e prendia até a sombra do viciado ou traficante. 

Meu primeiro serviço foi pintar uma propaganda do show da Gal Costa e vibrei com a possibilidade de ver o show de graça. 
Chegamos no local no final de Copacabana e a entrada do teatro era num beco de uns 100 metros de comprimento, que findava numa parede de 3 x 5 metros. Chegamos umas 10 horas da manhã com o sol prometendo fritar ovo no asfalto ao meio-dia. 

Pintamos rapidamente a imensa parede de branco, êle se afastou uns 50 metros e ficou olhando eu e a parede por um bom tempo. Voltou, entrou no Teatro, saiu e posicionou-se no mesmo local. Eu o acompanhei e ambos olhamos aquela brancura OMO por um bom tempo! 
Possivelmente êle não viu nada e eu menos ainda! 

Aí êle "apelou" e puxou do bolso um "tarugo" (cigarro de maconha maior e mais adubado para rodadas de mais de 3 viciados) imenso, na certa esperando a visita de Fidel Castro. Acendeu ali mesmo em pleno dia e mandou fumaça pra dentro. Sorte minha que era palha, aí o cheiro não se alastrou muito. Mesmo assim um morador colocou no mais alto volume no seu toca discos o hit da época: 
"tá um cheiro de mato queimado, / tá queimando, / pode ser que eu esteja enganado/ tem alguém mato queimando! 

Depois de umas 5 tragadas êle foi na parede riscou as letras, voltou, olhou e fumou mais um pouco, foi riscou uns desenhos e voltou... 
E assim foi a tarde e entrou a noite: 
Indo, fumando e vindo! 
Saimos de lá umas 10 da noite, mas o desenho ficou espetacular, digno de um nome como Gal! 

Mandou-me procura-lo no outro dia em seu atelier. Seu atelier ficava no shopping center da rua Siqueira Campos 143, que embora fosse gigantesco aparentava abandono. Para achar sua loja foi fácil: 
Bastou empinar o nariz e respirar fundo! 
Esse sujeito realmente gostava de uma Mary-Juana! 
Depois deste dia não o procurei mais. Andar com esse Mário Fumaça era estar com um pé na cadeia! 

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